Um grupo denominado Naparamas tem vindo a provocar medo em alguns distritos da província moçambicana de Nampula, nomeadamente Angoche e Erati, onde os seus membros, munidos de instrumentos contundentes, incendiaram e vandalizaram infraestruturas públicas, assassinaram pessoas e polícias em confronto com as autoridades.
Desde o mais recente ataque de dezembro do ano passado, pelo grupo, o distrito de Erati está sob controlo de forças combinadas de militares e agentes da ordem e segurança pública, ao mesmo tempo que várias instituições do Estado não estão a funcionar em pleno devido à vandalização dos edifícios.
Alguns residentes dos distritos de Angoche e Erati acreditam que o ressurgimento dos Naparamas deve-se às manifestações pós-eleitorais, uma vez que os ataques começaram naqueles distritos no auge dos protestos.
Um residente do distrito de Erati, chamado Juma, disse à Voz da América que o grupo voltou a entrar no distrito na semana passada, instalou-se no posto administrativo de Namiroa e tomou temporariamente o local até a chegada de militares.
"Quando o grupo de Naparamas chegou autointitulavam-se autoridades, mas quando entraram militares houve confronto alguns naparamas morreram , outros ficaram feridos e outros fugiram. Lembro-me que foi uma recomendação de que devíamos introduzir as corações para não parecerem ideias nossas", disse Juma.
Situação semelhante aconteceu na semana passada no posto administrativo de Ayube, no distrito de Angoche, onde um grupo de seis homens Naparamas foram abatidos pela polícia, quando, segundo informações, munidos de catanas e outros instrumentos contundentes, tentavam invadir instituições públicas.
Luís Cassimo, um dos lideres comunitários em Angoche, disse à Voz da América que o grupo diz ser apoiante do partido Podemos e nas zonas onde passa pretende instalar uma nova autoridade, e que isso provoca medo nas comunidades.
“Eles diziam que são do partido Podemos e querem criar a sua estrutura no bairro. Há um bairro que eles visitaram, elegeram o secretário deles, dizem secretário do presidente do povo", conta Cassimo.
A polícia da República de Moçambique em Nampula, através do diretor das Relações Públicas, Dércio Samuel, diz que a corporação investiga a origem e as motivações dos Naparamas.
“Há um trabalho que a polícia da República de Moçambique continua a fazer com base n população daqueles bairros onde a polícia tem tido informação que eles existem que é para buscar a sua proveniência, saber quem são, quais são os motivos e a finalidade das suas incursões, porque na verdade estes são indivíduos corajosos que procuram confrontar a polícia, e num exemplo concreto, no posto administrativo de Ayube, estes indivíduos catanatam um membro da PRM”, afirma Samuel.
Na quarta-feira, 12,o governador da província de Nampula visitou o distrito de Erati e classificou o que viu como “ato de terror e de vandalismo extremo, independentemente da sua motivação”, mas assegurou que o Governo poderá reconstruir as infraestruturas.
Eduardo Abdula apelou a população a que esteja vigilante a situações do género.
"É preciso lembrar que não temos só atos de vandalismo na província, temos também os ciclones, mesmo neste distrito já passou o Chido e temos infraestruturas destruídas pelo ciclone e agora veio acrescer a esta situação a questão de de vandalismo”, concluiu o governador.
Quem são os Naparamas?
Os Naparamas são guerreiros moçambicanos que surgiram nos anos de 1980 durante a guerra civil e que acreditam numa crença tradicional que diz que, depois de passarem por um tratamento específico, ficam protegidos das balas.
Para perceber mais sobre isso, conversamos com Teodoro Amade, Naparamas da aldeia de Muanza no distrito de Ancuabe, província de Cabo Delgado.
Amade, que é comandante adjunto de um grupo de Naparamas na sua comunidade, contou que o grupo ressurgiu há três anos em Cabo Delgado , como uma força local para auxiliar as forças governamentais no combate ao terrorismo.
“Com essa confusão de conflito, de Alshabab, há uma senhora que sonhou com um medicamento tradicional e começou a vacinar os jovens para poderem defrontar esta situação. Fazemos a vigilância e patrulhamento nas matas para controlar essa situação de terrorismo. por causa da vacinação os Naparamas não são atingidos por balas”, conta.
Mas apesar disso, Amade afirma que há casos em que podem ser atingidos e mortos a tiro devido à falta de cumprimento de algumas recomendações dos curandeiros que fazem a vacinação.
Por exemplo, “há alimentos que não se pode comer, durante o combate os Naparamas não podem se esconder em árvores ou pedras”.
Entretanto, Evaristo Muhano, presidente regional norte da associação de médicos tradicionais de Moçambique, disse que, face ao medo que se instalou devido à presença dos Naparamas, a organização trabalha para identificar o curandeiro que está envolvido no tratamento do grupo.
Muhano critica as autoridades policiais por assassinarem os Naparamas, o que pode dificultar a identificação do curandeiro que os orienta.
“Nesses sítios onde está atuar o grupo há autoridade, então o Governo devia quando pegar esse grupo trazer a nós para identificarmos quem está por trás deles. Por exemplo, ouvi que em Angoche mataram alguns, não deviam matar tinham que nos chamar e seriam eles a dizer qual é o seu curandeiro e nós íamos processa-lo”, afirma Muhano
Importa referir que num confronto na semana passada no distrito de Angoche, a polícia em Nampula abateu seis membros do grupo.
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