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Angola: Trabalhadores de organizações que recebem ajuda internacional temem pelos empregos


Príncipe Henry visita campo desminado pela Halo Trust em Dirico, Angola, 17 setembro 2019
Príncipe Henry visita campo desminado pela Halo Trust em Dirico, Angola, 17 setembro 2019

Cem colaboradoras da organização britânica Halo Trust afastadas recorreram à justiça

O despedimento de 100 colaboradoras da organização britânica Halo Trust em Angola é visto como alerta para um quadro social sombrio devido à redução do apoio de doadores internacionais, que pode repetir-se em várias estruturas

No entanto, esta “nova ordem mundial” no capítulo da assistência humanitária não abala a confiança de atores que trabalham na prevenção de doenças como o HIV/SIDA e a tuberculose.

Ao contrário do que se verifica na organização britânica especializada em desminagem, a contas com a justiça devido a despedimentos por alegada incapacidade financeira, não é um dado adquirido que o fim de um programa de nutrição com apoio externo venha a significar desemprego.

Trata-se de um programa da Jam, com fundos da Alemanha e Suíça, que vinha beneficiando milhares de crianças desfavorecidas na província de Benguela.

Tribunal ou acordo

Após ter sido obrigada pelo Tribunal do Lobito, em Benguela, a reintegrar as 100 colaboradoras afastadas, a Halo Trust enfrenta agora um processo-crime por desobediência, já como arguida, conforme apurou a Voz da América.

Enquanto aguardam pelo desfecho, várias sapadoras estiveram, na semana passada na Procuradoria-Geral da República (PGR) a solicitar explicações.

“Daí que estamos aqui mais uma vez, exigimos nossos direitos. Há algum tempo já estávamos no Bié e Kuando Kubango, lá mesmo nos tiraram, dizendo que os contratos acabaram e não há doações”, refere Delfina.

Outra colaboradora, Madalena, acrescenta que “salvamos vidas, por isso queremos a reintegração, salários ou indemnização, uma vez que hoje estão a cultivar em áreas que nós limpámos”.

A Voz da América procurou abordar o sub-procurador titular do Lobito, Almerindo Bastos, mas sem sucesso.

A Halo Trust, que diz estar a sofrer com os cortes nos financiamentos de doadores internacionais, promete apresentar a sua versão dentro de 15 dias e confirma o caso na justiça.

Cenário de aperto

Com este quadro o consultor social João Misselo da Silva, quadro da Organização Humanitária Internacional (OHI), antevê um cenário de aperto em várias áreas da vida social do país

“A OHI está a acompanhar tudo com grande preocupação, instamos a comunidade internacional em manter apoios na assistência social, a saúde, educação, segurança alimentar e nutricional e a própria desminagem”, diz Silva, acreditando que “assim será difícil cumprir a agenda 2030 das Nações Unidas, que precisa de investimento interno e externo”.

Tal como noticiou a Voz da América, limitações de doadores internacionais estão a afetar a distribuição da merenda escolar, conforme adverte a Jam, que deixou de operar em algumas províncias.

O técnico Morgado Culembe revela que está a terminar um programa de combate à má-nutrição e confessa que tinha a esperança de receber fundos da Agência dos Estados Unidos para a Cooperação Internacional (USAID).

“Temos apenas o prazo de até ao mês de maio, tínhamos esperança de um dia contar com financiamento da USAID. Para além da merenda escolar, temos, e vai já acabar, o programa de apoio ao combate à má-nutrição, distribuindo o leite terapêutico e o arroz na província de Benguela”, indica.

Trabalhos continuam

Culembe refere que “tem de se arranjar estratégia para que não haja desemprego, vamos ver internamente, mas se não existir … muitos terão mesmo de ficar em casa”.

Cenário inverso, por ora, é avançado pela ADPP, que trabalha na prevenção do HIV/SIDA e tuberculose nas províncias do Bié, Benguela e Kwanza Sul, no quadro do apoio do Fundo Global (FG).

“Por enquanto … não temos nenhuma chamada de atenção negativa, achamos que vamos continuar sem problemas até ao fim. Estão [funcionários] descansados, vão trabalhar, temos acordos para até Junho do próximo ano, ainda estamos bem”, refere o Coordenador Interprovincial é Andrew Pamuchigere

No mesmo pacote do FG, está a Organização de Interação Comunitária (OIC), que tem como diretor o ativista Rodrigues Tomás.

“São vários países que comparticipam, os Estados Unidos … acredito que contribuam com 30 por cento, enquanto entidade sub-receptora não temos nenhuma informação de cancelamento”, revela Tomás, assegurando que “as ações continuam no apoio a estes grupos vulneráveis nas três províncias”.

Entre 2016 e 2023, Angola recebeu 400 milhões de dólares para o combate à malária, hiv/sida e tuberculose.

Destacando a importância deste mecanismo no país, a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, considera que Angola ganhou a confiança do FG, demonstrada no aumento dos orçamentos anuais, e realça que o seu pelouro está preocupado com as chamadas doenças comunitárias .

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